quarta-feira, 24 de maio de 2017

A Morte e o Morrer - Pequeno ensaio: tributo



Título já velho para artigo, texto, poema, livro. Assunto ainda muito ameaçador à vida:
morte. Penso na morte quase que diariamente, será pelo fato de ser mórbida? Pois só uma mórbida, diriam os sensatos, pensariam nela todos os dias. Ou quem sabe os deprimidos?Longe estou de ser uma pessoa mórbida ou deprimida. Momentos de tristeza ou melancolia sim, mas deprimida, não. Então porque pensar na morte? Há sim poderíamos dizer que a psicologia ajuda, será? Conheço tantos psicólogos, psiquiatras que não suportam falar sobre a morte, parece doença letal, que pega e pega mesmo, pois esquecemos que todos nós vamos morrer um dia e não entendemos o motivo da morte.

É triste, admito. Não é fácil perder alguém que se ama ou nos imaginarmos finitos, mas é real. Nada podemos fazer  a respeito desta verdade absoluta. Quando alguém morre somos remeximos internamente, pois sentimo-nos ameaçados pela nossa própria finitude.
A morte em si não me mete medo, mas a dor de não se estar preparado para a passagem sim. Ver os outros fugindo deste momento, impar quando é possível  rever valores, fazer as pazes, arrumar papéis e sentimentos. De simplesmente aceitá-la quando chegar a hora em que a vida diz basta. Seja em que hora for, na infância, na adolescência, na idade adulta ou na velhice. Não existe hora para a vida dar o seu basta.

Podemos até morrer em paz, tratados, ao lado de quem amamos e se possível com poucas dores ou morrer gritando que queremos ficar mesmo sabendo que a vida se cumpriu. Que aquele ciclo terminou. Difícil lidar com a família, difícil para pessoas que temem a morte entende-la. Difícil perder.

Hoje este tema me fez parar e tentar escrever algo sem psicologismo, sem bibliografias só com o que sinto e entendo do pouco que a vida me ensina. Ouvi, hoje, minha tia comentar o que minha irmã, de apenas 42 anos, lhe perguntou:  - Tia, porque você vive até 71 anos e eu não viverei até lá? Minha tia respondeu de forma sábia, a forma dos espíritas kardecistas de encarar a morte. Mas quando me contou chorou e eu enchi meus olhos  de lágrimas e pensei: tenho que ser forte, assim é a vida.

Morrer não é tão triste. É preciso morrer sabiamente com dignidade. Morrer é renascer de novo e ir para junto do Pai e quem sabe recomeçar. Vida e morte caminham juntas, quem tem medo de morrer tem medo de viver. Vamos viver plenamente, sabiamente e morrer assim também. Morrer faz parte do nosso destino, não há como escapar dele. Pensar na morte e nos prepararmos para ela não é mórbido, mas saudável. Morremos todos os dias e renascemos também.

Quem fica também tem se preparar, chorar, sentir, mas seguir em frente. Fácil? Não, não é. Difícil. Fica um rombo, um vazio. Como preenche-lo? Cada um vai buscar uma maneira diferente para isto, de preferência, uma forma saudável. Esquecer? Nunca. Lembrar com saudade e entender que fizemos o nosso melhor ou às vezes nem tudo que poderíamos fazer por dificuldades, por medos, sem culpas. Todos falam sobre a arte de viver, mas se esquecem sobre a arte de morrer. Morte é transmutação. Mudança de estado, de energia.

Admito que é extremamente difícil ver alguém que amamos em seu processo de término, principalmente quando acometidos de um câncer. Não sei o que dói mais: o prenúncio da morte ou a imagem daquele ente amado definhando aos nossos olhos. A dor é impar e sentimentos de impotência, culpas, remorsos e outros nos chegam, às vezes de mansinho às vezes avassaladoramente. Impossível de não senti-los afinal de contas nem sempre somos hábeis nas palavras ou atitudes e magoamos como somos magoados.

Como profissional de saúde mental, com cursos ligados ao tema sinto-me na obrigação de ser forte, mas admito que dói. E como não sou psicanalista escrevo este “texto” de peito aberto e com a certeza de que: cada minuto que passei e passo com minha irmã valem a pena. Que não há nada humanamente possível que eu possa fazer para livrá-la deste fardo, mesmo querendo muito, que não existem culpados, simplesmente assim é a vida e que a morte faz parte dela é a vida também: o recomeço, a esperança e as lembranças de alguém especial em nossos corações.

Minha irmã, apesar de nossas divergências, é especial. Uma grande guerreira, mesmo sem saber,  lutou metade de sua vida contra a bipolaridade e há alguns meses contra um câncer. Minha irmã que me ensinou a respeitar e a entender esta doença (bipolaridade) tão mal interpretada pela sociedade, por colegas meus e até por médicos e a vivenciar na carne a perda de alguém amado por um câncer. Se este foi o motivo dela ter vivido, valeu a pena, pois me tornei uma pessoa melhor conseqüentemente uma profissional melhor: mais humana. Mana: Te amo muito e obrigada pelos 40 anos que convivo com você,minha homenagem, meu tributo.

Eliane Pietroluongo Vianna em 18/03/2008



Elaine Pietroluongo Vianna 
28/11/1965
20/04/2008

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